Como crianças de quilombos se reconhecem enquanto quilombolas?

Como você se reconhece? De que modo a sua formação escolar contribuiu para isso? Com o olhar voltado para a educação de crianças quilombolas, o pesquisador Wesley de Souza deu início, em 2016, a uma pesquisa que buscou entender exatamente a forma como as crianças são capazes de se reconhecer etnicamente. Desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Relações Étnicas e Contemporaneidades da Uesb, o estudo foi realizado junto à comunidade de Nova Esperança, localidade da zona rural do município de Wenceslau Guimarães, região Sul da Bahia. A proposta central foi analisar como as práticas educativas daquela comunidade contribuem para que as crianças se reconheçam enquanto quilombolas. O estudo foi realizado na Escola Quilombola Caminho da Boa Esperança e utilizou, como técnicas de pesquisa, entrevistas, observação participante, oficinas de desenhos, questionários e diário de campo nesse estudo. O trabalho contou com a participação de crianças do 5º ano, além de pessoas da comunidade, como a presidente da associação, o presidente, na época, do reconhecimento pela Fundação Palmares, a primeira professora da comunidade e uma representante dos pais dos estudantes. Os resultados apontam uma preocupação da comunidade em torno da manutenção dos aspectos culturais, evidente tanto nas falas dos adultos como nas impressões das crianças. Essa impressão está aliada à questão educacional do local. Segundo o pesquisador, existe uma sensação de “falta de práticas pedagógicas e ações por parte da escola que promovam o sentimento de reconhecimento do ser quilombola nas crianças e jovens de Nova Esperança”. Além da sensação, a pesquisa constatou uma falta de currículo diferenciado na escola analisada, medida legal segundo as Diretrizes Curriculares para Educação Escolar Quilombola. “Mesmo a Escola Quilombola Caminho da Boa Esperança estando inserida numa comunidade quilombola, no caso do currículo, é utilizado o geral do município, como se essa fosse uma escola sem especificidades e demandas próprias”, pontuou Souza. A pesquisa revelou ainda que as crianças da comunidade relacionam o ser quilombola apenas com os aspectos raciais. Junto a isso, o discurso trabalhado dentro da Escola é de que “ser quilombola está associado à África e ao passado de escravidão que permeia o imaginário das pessoas”, contou o pesquisador. O reconhecimento de espaços da própria comunidade também fez parte da pesquisa. Nas análises dos desenhos, Souza identificou um local da comunidade no qual quase todas as crianças pintaram como “lugar da felicidade”: uma cachoeira onde elas comumente vão.

Visibilidade – Apesar da grande produção científica sobre educação infantil e crianças, estudos voltados para a criança negra e quilombola ainda é muito raro, segundo o professor Benedito Eugênio, orientador da pesquisa. “A maior contribuição da pesquisa é visibilizar as possibilidades de trabalhar e de entender quem são essas crianças que estão nessas comunidades [quilombolas]”, assegurou. A pesquisa faz parte de uma série de estudos que vem sendo realizadas no Programa, relacionando comunidades quilombolas e educação.    Comunidade quilombolas tem crianças que precisam de educação. (Foto Divulgação).

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