Mulheres vassoureiras sustentam famílias com atividade que ainda não é reconhecida

Para as moradoras da comunidade do Km 04, na cidade de Jequié, a produção de vassouras artesanais de Ouricuri é mais do que fonte de renda. Tecer a palha natural da palmeira encontrada na região e transformá-la no artefato é também uma forma de manter viva a tradição, que vem sendo passada de geração para geração. A cultura das chamadas “vassoureiras” chamou a atenção de Isis Chabi, que finalizou a graduação em Pedagogia na Uesb com um trabalho de conclusão do curso (TCC) sobre os impactos dessa tradição na construção da identidade dessas mulheres. “Esse desafio assume faces duramente cruéis que as fazem ter escolhas que irão refletir ao longo de toda sua vida, de toda sua história, bem como na história de suas famílias”. A partir da análise de processos sociais que envolvem a construção da identidade da mulher na sociedade capitalista, a pedagoga pesquisou sobre essas mulheres, que são de camadas populares, enfatizando as relações entre família, trabalho e escolarização. O estudo pressupõe que essa identidade está em constante transformação, como resultado da interação entre os indivíduos e a sociedade.

Trabalho de mulher – Foi possível perceber, na análise, que a complexidade que envolve esse fenômeno está além do condicionamento social e da instauração de funções e papéis. Nas relações entre homens e mulheres, por exemplo, a pesquisadora constatou que trabalhos inferiorizados e tidos como “obrigação” são direcionados às mulheres. Já funções e representações de maior poder e destaque são atribuídos diretamente aos homens, mesmo quando eles não participam da força produtiva de trabalho, como no caso da produção de vassouras, realizada em sua totalidade pelas mulheres. “Devido à expansão da atividade e a procura pelas vassouras, o bairro ficou conhecido na cidade como produtor de vassouras e a área que mantinha maior produção recebeu o nome popular de ‘rua das palhas’”, comenta a pesquisadora. Mesmo diante desse crescimento e sendo as vassoureiras, em sua maioria, as responsáveis pelo sustento do lar,  a atividade ainda não é reconhecida socialmente. Segundo Isis, a essência da pesquisa é mostrar essas mulheres que são invisibilizadas. “Trazer suas vozes à tona e oportunizar suas falas, respeitando suas especificidades e valorizando suas histórias de vida, reflete diretamente em suas existências e resistências”, defendeu. A partir dessas percepções preliminares, a pesquisadora pretende aprofundar a pesquisa no Mestrado. “Desde outrora e ainda hoje, a atividade de confecção de vassouras tem sido uma válvula de escape social na luta pela sobrevivência destas famílias. A pesquisa possibilita a reflexão sobre a importância dessa atividade para cada uma dessas famílias bem como para a comunidade”, reflete. Para a orientadora da pesquisa, professora Cláudia Barbosa, do Departamento de Ciências Humanas e Letras, essa contrução de identidade se dá não só pela desvalorização do trabalho das mulheres, mas também devido à cultura machista da atuação delas nos espaços públicos. “Trata-se de uma constatação de que as mulheres vivem em um mundo ainda dos homens e suas ações ainda são invisibilizadas e imbricadas em relações de poder mais profundas”, pontua.

                     Vassouras fabricadas em Jequié por mulheres. (Foto Produção).

Redação

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